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A arte de pensar (além do óbvio)

Dr. Márcio Siqueira Silva29/04/2026
A arte de pensar (além do óbvio)

A arte de pensar (além do óbvio)


“Complexificar a análise e simplificar a conclusão”. Luiz Orenstein 


Howard Marks, famoso investidor norte-americano, cunhou o termo ‘second-level thinking’ para explicar o seu método de raciocínio e análise de seus investimentos. Enquanto o pensamento de primeiro nível é uma forma de pensar simples e superficial, o pensamento de segundo nível é profundo, intrincado e complexo. Configura-se uma forma de pensar em algo que outros não cogitaram, que não viram ou que tem uma compreensão mais profunda a respeito do tema. Abrange uma série de camadas da matéria estudada, aprofundando a análise, cogitando eventos futuros, avaliando probabilidades, descartando vieses, desmitificando consensos e revisando continuamente as decisões.


A ideia por trás do conceito de segundo nível de pensamento surge após uma conversa entre Howard e Charlie Munger, outro notável investidor norte-americano. Munger observou que considerar algo como simplesmente fácil é sinal de estupidez. Marks, então, pega emprestado esta ideia para exemplificar o conceito de pensamento de primeiro nível. Para ele, a característica mais marcante dos pensadores de primeiro nível é que gostam de coisas com apelo óbvio, não entendem o processo pelo qual pensam e opinam, comportam-se sob efeito manada e chegam a conclusões fáceis e rápidas a despeito de qualquer tema. 


O pensamento de primeiro nível, muitas vezes, leva ao efeito Dunning-Kruger, um viés cognitivo pelo qual pessoas com baixa habilidade em uma tarefa superestimam suas capacidades. Trata-se da tendência sistemática de se envolver em formas errôneas de pensar e julgar. Justin Kruger e David Dunning, autores do estudo que descreve este viés, constataram que a ignorância gera confiança com mais frequência do que o conhecimento. Desta forma, estes indivíduos falham em reconhecer suas próprias faltas de habilidade, a extensão de suas próprias incompetências e a admitir suas próprias faltas depois que são treinados para aquela habilidade. Por outro lado, pessoas com real conhecimento tendem a subestimar sua competência, pois entendem que à medida que compreendem a vasta complexidade do conhecimento, percebem o quanto ainda lhes falta aprender.


Por isto, Adam Grant, autor e professor especializado em psicologia organizacional, em seu livro Pense de novo considera fundamental ter humildade intelectual. Para ele, reconhecer as fraquezas abre caminho para a dúvida, o que pode ser uma dádiva. Questionar informações em vez de apenas assimilá-las pode ser contraintuitivo, mas evita tirar conclusões precipitadas ao levar em conta a complexidade dos assuntos e desafia o senso comum. O prudente, desta forma, busca o conhecimento enquanto o inexperiente segue adiante e sofre as consequências, como já foi escrito (Provérbios 22:3). A humildade, por sua vez, pede autoexame. Hugo de São Vitor, há séculos atrás, dizia que o homem deve estar atento e ser prudente, que confronte consigo mesmo seus pensamentos, palavras e atos com exame de consciência diário; nada mais do que uma revisão consciente de seus pensamentos.  


Louis Lavelle, filósofo francês, complementa essa atitude ao defender que jamais se deve subordinar o que se pensa a uma preocupação particular, sem tirar os olhos para o ato do pensamento, dando bastante atenção a si mesmo e não dando importância a opinião ou a maneira com que pode ser julgado. Com essa base interior, Munger aprofunda o tema ao ressaltar a importância de excluir ruídos que atrapalham o raciocínio e considera que é fundamental deixar de lado informações desnecessárias. Para ele, confiar sua análise e julgamento inteiramente aos outros pode levar a graves dificuldades sempre que estiver fora do seu restrito território de conhecimento. Vieses no erro de julgamentos como seguir um grupo social sem entender seus reais incentivos ou não querer parecer inconsistente, mesmo quando sabe o que é o certo são exemplos de erros de juízo do pensamento. Assim, a única coisa que importa é em que medida sua análise e seu julgamento estão corretos, e não o quanto as outras pessoas concordam ou discordam de você.


Diante disto, para uma análise correta, é necessário consumir informação de alta qualidade. Shane Parrish, um ex-espião canadense, em seu livro Pensamento Eficaz alerta que boa parte do que as pessoas consideram informação ou fato é, na verdade, apenas opinião. Por isto, no processo analítico, é importante buscar informações de alta fidelidade, próxima à fonte primária e não filtradas por vieses e interesses de outras pessoas. Diferenciar especialistas - aqueles que compreendem o conhecimento de forma profunda e entendem suas limitações - dos imitadores, ou seja, aqueles indivíduos que são meros divulgadores de conteúdo e não tem o entendimento adequado do assunto, é importante para auxiliar na tomada de decisão de raciocínio. Observar como especialistas pensam o problema, julgam as variáveis relevantes e de que maneira interagem ao longo do tempo é fundamental para, a partir disto, entender que a qualidade da decisão tem relação direta com a qualidade do pensamento que está relacionada à qualidade de suas informações. Desta maneira, evitam-se conclusões precipitadas, de imediato e superficiais, pois uma análise superficial, logicamente, gera conclusões superficiais.


Rick Rubin, produtor musical, complementa essa ideia ao enfatizar a curadoria: ver além do comum e do mundano para chegar ao que é invisível à maioria das pessoas. É preciso pensar com cuidado e selecionar bem o que deixamos entrar em nosso dia a dia. Assim, nossa mente permanece apta a discernir e, em vez de soar como os outros, valoriza-se e desenvolve-se a própria voz. Naval Ravikant, empreendedor indiano radicado nos Estados Unidos, considera fundamental pensar com clareza. Para isto, é fundamental ter informações adequadas. No entanto, clareza de pensamento exige um método.


Para isto, é necessário compreender a distinção entre os sistemas de pensamento propostos por Daniel Kahneman, psicólogo israelense. No livro Rápido e Devagar, Kahneman propõe dividir a forma de pensar em dois sistemas. O Sistema 1 é um modo de pensamento rápido, intuitivo, automático e sem esforço consciente, com ou nenhuma atenção voluntária. Este sistema é responsável por julgamentos e decisões rápidas, baseadas em experiências passadas e emoções. Já o Sistema 2 é uma maneira de pensar caracterizada pela lógica consciente e deliberada. Isto exige um esforço cognitivo significativo para analisar informações, avaliar opções e chegar a decisões ponderadas, sendo essencial para a resolução de problemas complexos e a tomada de decisões estratégicas.  


Dominar o pensamento de segundo nível é, antes de tudo, treinar o Sistema 2 e cultivar a paciência mental para raciocinar devagar. Permanecer no Sistema 2 exige atenção, presença de espírito e disposição para questionar o óbvio. Robert Pirsig, escritor e filósofo americano, em seu livro Zen e a arte da manutenção de motocicletas lembra que a compreensão verdadeira não vem de seguir manuais de maneira passiva e automática (Sistema 1), mas de ter atenção, presença e disposição para questionar o óbvio (Sistema 2). Para ele, deve-se aprofundar no funcionamento das partes e nas interações do todo, não seguir guias ou fórmulas, mas entender profundamente a complexidade das coisas e interpretar sutilezas que um procedimento padronizado não cobre. 


A prática repetida desse tipo de raciocínio eleva-o a uma arquitetura de múltiplas camadas, como defende Munger: antever como os outros interpretarão sua decisão, quais contra-argumentos virão e como as respostas se desdobrarão. Quando se ultrapassa o pensamento de segundo nível e domina a capacidade de pensar em múltiplas camadas, é possível atingir um estado de plena concentração, domínio técnico e entrega ao processo onde tempo e ego desaparecem. Este estado é chamado de Flow e foi descrito por um psicólogo de origem húngara chamado Mihály Csíkszentmihályi. 


Apesar de ser um estado psicológico que pode ser mais associado ao Sistema 1 (rápido, automático) no sentido de que a ação flui sem esforço, também envolve um nível de atenção e concentração que lembra o Sistema 2 (deliberativo, consciente). A experiência de Flow pode ser vista como a culminância de um percurso evolutivo do pensamento. Quando repetido e aprofundado, o pensamento atinge o conceito de Qualidade proposto por Pirsig: um estado de compreensão integrada, no qual já não se trata apenas de aplicar fórmulas, mas de vivenciar a união entre atenção, técnica e sentido. 


Do ponto de vista prático, esta cadeia de pensamento pode ser utilizada em qualquer área: medicina, política, investimentos, entre outras. 


Na medicina, por exemplo, o pensamento de primeiro nível se manifesta quando o médico se apoia apenas na superfície dos sintomas ou em protocolos automáticos: o paciente tosse, logo é gripe; tem dor, logo é prescrito um analgésico. Esse raciocínio imediato pode ser rápido, mas frequentemente é raso e até perigoso. Ele se aproxima do efeito Dunning–Kruger: quem sabe pouco acredita saber muito, e por isso toma decisões simplistas com excessiva confiança.


Para evitar esse erro, o clínico precisa de humildade intelectual — reconhecer que não sabe tudo, que cada paciente é singular e que o diagnóstico exige mais do que fórmulas prontas. A humildade abre espaço para o autoexame: revisar as próprias convicções, confrontar se não está apenas repetindo rotinas, perceber se suas escolhas são fruto de julgamento sólido ou de pressa. É também um exercício de integridade intelectual: não subordinar o raciocínio à opinião dos colegas ou às pressões externas, mas permanecer fiel à busca do que é verdadeiro.


Nesse processo, torna-se essencial excluir ruídos e vieses. Na prática, significa não se deixar levar pelo viés de ancoragem em um exame laboratorial isolado, pelo viés de confirmação que reforça apenas a hipótese inicial, ou pelo efeito manada de um diagnóstico fácil e popular. O médico precisa se guiar por evidências sólidas e não pelo coro de opiniões.


Mas para que a análise seja confiável, é necessário obter informações de alta qualidade. Isso implica ir direto às fontes: ouvir atentamente o paciente, examinar o corpo, consultar literatura científica primária. É bem diferente de se apoiar em resumos de baixa fidelidade ou em “atalhos” oferecidos por terceiros. Essa seleção cuidadosa de informações exige, como ensina Rubin, um filtro: escolher com rigor o que se deixa entrar na mente e no raciocínio clínico. 


Com informação depurada, o médico pode pensar com clareza. Aqui entra a distinção entre o Sistema 1 e o Sistema 2: o primeiro é rápido, intuitivo, automático; o segundo é lento, analítico, exigente. O bom raciocínio clínico não descarta a intuição, mas precisa deliberadamente cultivar o Sistema 2, dedicando tempo e atenção ao diagnóstico.


Essa atenção pede presença de espírito e disposição para questionar o óbvio. Não basta aplicar protocolos de forma cega; é preciso compreender como cada sintoma se encaixa, como cada exame dialoga com o quadro geral e se pequenos sinais não escondem algo maior. O diagnóstico é tanto ciência quanto arte, e só floresce na escuta profunda e na análise detalhada.


Quando esse processo se repete e amadurece, o médico atinge um raciocínio em múltiplas camadas: não apenas considerar o que o tratamento fará no corpo, mas como o paciente reagirá ao diagnóstico, como a família interpretará a decisão, e até como o sistema de saúde responderá à conduta adotada. É um pensamento que antecipa não apenas causas imediatas, mas também efeitos secundários e terciários.


E, em alguns momentos, quando a experiência, a técnica e a atenção plena se unem, o médico entra no estado de Flow. A consulta deixa de ser uma sequência mecânica de perguntas e respostas e se transforma numa presença total: tempo e ego desaparecem, e resta apenas a interação significativa entre médico, paciente e conhecimento. A cirurgia deixa de ser um procedimento automatizado, a atenção se afina e o pensamento analítico dá lugar a um estado em que cada movimento flui com naturalidade e o cirurgião está plenamente presente, absorvido no processo. 


Nesse ponto, reencontramos a noção de Qualidade de Pirsig: a medicina não se reduz a seguir protocolos, mas a agir com sabedoria, discernimento e humanidade. E assim, ao retomar o pensamento de segundo nível, percebemos que o verdadeiro ato clínico não é a resposta rápida, mas o julgamento profundo, sustentado por humildade, atenção e clareza.

 

Conclui-se, portanto, que pensar em segundo nível é abandonar o conforto de respostas prontas, reconhecer que as melhores decisões nem sempre são óbvias e entender por que fazemos o que fazemos. Esse esforço constante abre espaço para o pensamento em múltiplas camadas, no qual não apenas avaliamos causas imediatas, mas antecipamos reações, consequências e sentidos ocultos. E, quando essa prática disciplinada amadurece, ela nos conduz naturalmente ao estado de Flow: o ponto em que técnica, atenção e presença se integram de tal modo que o pensar e o agir se tornam um só movimento, e a complexidade é vivida com clareza e naturalidade para atingir a Qualidade. Desta forma, maior a probabilidade de tomar a decisão correta. Assim, em um mundo saturado de simplificações que exige rapidez, este tipo de pensamento não é apenas uma vantagem, mas uma necessidade e um ato de resistência consciente.



Dr. Márcio Siqueira Silva

Responsável pelo artigo

Dr. Márcio Siqueira Silva

Equipe editorial

Urologia pela UNESP – Faculdade de Medicina de Botucatu Fellowship em Uro-oncologia pelo A.C. Camargo Cancer Center

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