Grit: um estudo sobre garra e perseverança
“A perseverança é superior à violência, e muitas coisas que não podem ser superadas de imediato cedem quando enfrentadas pouco a pouco”. William J. Bennett¹
Grit, conceito desenvolvido e consagrado pela psicóloga Angela Duckworth em seu livro Grit: O Poder da Paixão e da Perseverança², é definido como perseverança e paixão por objetivos de longo prazo. Nesta obra, Duckworth mostra que o segredo para um desempenho excepcional não é uma mera questão de talento, mas uma mistura especial de paixão e persistência que ela chama de grit. Este termo é a combinação de paixão duradoura, um interesse e propósito que se mantém ao longo do tempo, com perseverança consistente, a capacidade de continuar se esforçando e praticando, mesmo diante de fracassos ou críticas.
Segundo Duckworth, a habilidade de manter o foco em um objetivo de longo prazo, mesmo diante de dificuldades, é um indicador mais forte de sucesso do que o talento inato. Felizmente, trata-se de uma competência que pode ser desenvolvida por qualquer pessoa, sendo observada em grandes indivíduos de diferentes áreas, profissões, idades e ambientes sociais.
Para um indivíduo desenvolver esta habilidade, são necessárias diversas outras capacidades que juntas atingem a combinação de paixão e perseverança. Pode-se analisar este tema a partir de subtópicos que auxiliam o entendimento e a aplicação do conceito de grit.
Motivação é a força motriz alimentada pela paixão para qualquer atitude ou ação de sucesso. Não se trata de algo passageiro, mas de um interesse profundo e duradouro por um objetivo que confere propósito e significado à vida, sendo crucial para atingir o compromisso desejado. Muitas vezes, isto é relacionado a algo maior e alinhado com valores pessoais intrínsecos, não impulsionado por recompensas externas, mas sim por uma paixão genuína pelo que se faz ou pelo que se quer. A motivação é o primeiro passo parar transformar uma vontade em um compromisso de senso elevado e o melhor motor para a aquisição de uma competência³.
Sem coragem, a motivação é insuficiente para atingir os mais belos e altos objetivos. A coragem é um atributo intrínseco e essencial para a manifestação de grit. Não se trata da ausência do medo, mas, sim, da capacidade de encarar e enfrentar riscos, críticas e fracassos sem abandonar o propósito estabelecido. É aceitar a vulnerabilidade do caminho e seguir mesmo assim; é sair da zona de conforto, enfrentar desafios que testam os limites, encarar o medo do fracasso e continuar a lutar por sonhos, mesmo quando a probabilidade de sucesso não é garantida. Sem coragem, a paixão pode permanecer apenas um desejo e a perseverança pode falhar diante do primeiro grande obstáculo.
Da motivação e coragem para atingir os objetivos, é fundamental ter alinhamento com a verdade e às virtudes. Alinhamento é a lealdade a si mesmo, retidão de pensamento e veracidade das palavras4, conexão entre paixão e valores pessoais e a busca por algo profundo e, ao mesmo tempo, elevado. Trata-se de trabalho duro por algo maior e com significado. O esforço por si só é fugaz, sendo fundamental um propósito maior para sustentar este trabalho persistente no longo prazo. Para isto, é necessário ser justo e honesto, “não cair na tentação” (Mt 26:41) de seguir o caminho errado e não concordar nem com a menor das sacanagens5. Lealdade a si consiste em acreditar em você, não ter medo de errar, não ouvir pessoas pessimistas6 e não fazer o que não achar (que é) direito7. Exige, também, limpeza de consciência, retidão de pensamento e veracidade das palavras.
Depois de alinhar o objetivo desejado com a verdade, é fundamental assumir responsabilidade sobre a intenção pretendida. Ser responsável é responder pelos próprios atos, ter consciência de carregar a própria carga (Gl 6:5) e prestar contas de si mesmo (Rm 14:12). Assumir responsabilidade é desempenhar um trabalho, grande ou pequeno, com atenção, honradez e firmeza8. Assim, perseverança e paixão sem responsabilidade é desejo perecível, falta de juízo e inconsequência, reflexo de futilidade e insensatez, sendo, muitas vezes, fruto da imaturidade. Objetivos espúrios não resistem ao tempo, mesmo com perseverança, pois a paixão declina e vai contra a consciência. A responsabilidade não é apenas individual, mas também “perante os outros” (Gl 6:2), com caridade e “amor ao próximo” (Mc 12:31), pois todo indivíduo faz parte de uma sociedade e deve-se ter o bem comum como valor a ser desenvolvido. Ser exemplo, incutir valores, habilidade de ouvir e estimular o melhor de cada indivíduo9 é consequência da responsabilidade no âmbito social, propiciando a evolução do próximo. Desta forma, reforça valores individuais ao promover o benefício comum.
A partir disto, pode-se chegar à persistência prudentemente. A persistência é o cerne do grit e consiste na recusa em desistir, não importa o quão difícil seja a jornada; é o que diferencia os bem-sucedidos daqueles que param no meio do caminho, pois começar é de todos, mas perseverar, de santos10. Durante a cansativa caminhada entre o início e o alcance do objetivo traçado, há um momento crucial que exige o máximo de perseverança e força de vontade: trata-se do vão11, o vale onde há o ponto mais baixo e difícil da trajetória corrida. Atravessar esse ponto e chegar ao outro lado é fundamental para atingir o sucesso. Ser forte e superar essa fase para chegar ao outro lado é sinônimo de persistência.
Sem disciplina, não há persistência. Na disciplina, o indivíduo se torna "discípulo" de si mesmo, capaz de se controlar e ser obediente. Estar disposto a fazer o que é preciso é assumir um compromisso de longo prazo de forma sábia, deliberada e consistente12. Mesmo que saiba o que deve ser feito, se a força de vontade é fraca, o resultado será insatisfatório. Assim, o treinamento da disciplina deve fazer parte da educação moral13 do indivíduo. Ser consistente na prática diária da disciplina, nos grandes ou pequenos afazeres, imprime uma orientação nova para adquirir força de vontade de persistir e negar inclinações, estímulos e desejos imediatos14 e resulta no triunfo desejado15. Aceitar que, “na vida, tudo tem o seu tempo” (Ecl 3:1) auxilia a persistir e ter paciência, fortalecendo a disciplina.
Para desenvolver uma disciplina firme, é necessário ser forte. Fortaleza é a capacidade de enfrentar desafios, contratempos e fracassos sem desistir. É a habilidade de resistir aos infortúnios e decepções, compreender as dificuldades como parte do processo de crescimento e usar as falhas como oportunidades para aprender. É algo de força mental, está ligado à resiliência emocional e representa, antes de tudo, a força interior diante das dificuldades e requer sempre uma certa superação da fraqueza humana e, sobretudo, do medo16. Trata-se de jamais subordinar o que se é, ou seja, o que se pensa, o que se diz ou o que se faz, a uma preocupação particular ou finalidade temporal17, pois as maiores batalhas serão travadas contra si mesmo18; por isto, é necessário ser honesto consigo e exigir de si mais do que os outros pedem. Por outro lado, é importante não desanimar, nem desesperar se nem sempre conseguir pôr em prática os princípios verdadeiros19. Assim, a regra mais importante para a vida consiste em saber suportar todas as coisas20, “fazer com toda a força o que tiver que ser feito” (Ecl 9:10), “ter ânimo e ser forte, sem medo ou temor” (Js 1:9), pois “se mostrar fraco no dia da angústia é por que a força (interior) é pequena” (Pr 24:10).
Para atingir os objetivos de longo prazo, é fundamental ter foco. Não se trata de ter interesse em muitas coisas, mas uma obsessão por um único propósito. Consiste na concentração máxima no presente momento21 e no controle do poder de atenção22, pois desatenção e negligência causam infortúnios23. Não é necessário algum talento para ser focado, mas é fundamental ser determinado, ter paixão e empenhar-se ao máximo24. Manter o foco por anos pode ser difícil, mas é essencial para atingir o sucesso desejado. Sem foco, não há grit, a paixão se dissipa em múltiplos interesses e a perseverança pode se tornar errática, impedindo o acúmulo de esforço necessário para o sucesso. Quando falhar o foco, deve-se procurar a fé.
A fé recoloca o indivíduo no devido lugar em busca de retomar o foco perdido; O homem de fé não hesitará em abraçar renúncias25 e utiliza a sua crença como suporte nos momentos de incerteza. A fé se refere à convicção inabalável de alcançar objetivos de longo prazo, mesmo diante de adversidades e fracassos, à crença de que o esforço contínuo e a perseverança levarão ao sucesso, e à esperança de que os desafios podem ser superados. "Todas as coisas, quantas pedirdes na oração, crede que as recebestes e assim vos acontecerá" (Mc 11:24). Com fé, é possível superar os inevitáveis obstáculos encontrados pelo caminho.
Logo, poder de superação é alimentado pela fé e resultado direto da persistência. É a capacidade de superar falhas, críticas e desapontamentos, usando-os como combustível para continuar. Cada obstáculo vencido fortalece a identidade perseverante. Ao iniciar o caminho do progresso e da melhoria, deve-se estar preparados para um longo período de esforço incessante, para muitas recaídas e fracassos. Mas há, no fim, por mais dolorosa que seja essa necessidade, uma grande compensação26. A superação, no contexto de grit, é o resultado direto da persistência. O indivíduo com poder de superação não observa o fracasso como um ponto final, mas como um degrau para o sucesso e se recupera das adversidades para se tornar mais forte, pois como escreveu Cervantes, todas as tempestades que acontecem são sinais de que logo o tempo vai acalmar e acontecer coisas boas, pois não é possível que o mal ou o bem durem sempre, do que se conclui que, havendo o mal durado muito, o bem já está próximo 27.
Durante a formação e atividade médica, é fundamental ter a habilidade de grit. Desde o início, o indivíduo é continuamente desafiado por longos anos de estudo, necessidade de disciplina e dedicação diária, pressão emocional do contato com a dor e sofrimento, e responsabilidade ética que a profissão exige.
A motivação é a fagulha inicial para transformar um desejo em paixão duradoura. A partir disto, há o alinhamento entre esta paixão com valores pessoais (serviço, empatia, ética, etc). Um médico com grit não é motivado apenas pelo status ou recompensa, mas pelo significado do seu trabalho. A coragem para enfrentar diagnósticos complexos e em assumir a responsabilidade por uma vida; e a fortaleza interior para suportar as decepções do cotidiano médico são elementos necessários para o desenvolvimento das habilidades e capacidades médicas. Assumir não apenas a responsabilidade pessoal (da própria carga), mas, também, a responsabilidade social e ética perante o paciente e a comunidade (familiares, amigos, etc) mostra o quão importante é o papel do médico no cuidado do doente além do conhecimento técnico. O foco é fundamental para adquirir habilidades intelectuais e manuais a fim de proporcionar o melhor cuidado e tratamento ao paciente. No entanto, sem disciplina, isto não é possível. Assim, ser consistente na prática da disciplina é a chave para a persistência na medicina, pois o domínio técnico é alcançado gradualmente e renovado diariamente. A fé é o suporte nos momentos de incerteza e desesperança, confortando o médico, o doente e seus entes próximos. Com auxílio dela, é possível ter poder de superação e transformar uma adversidade em força para algo maior.
O verdadeiro diferencial do médico não está apenas em sua capacidade técnica, mas em sua garra para persistir, aprender com os erros, manter o foco no bem do paciente e superar adversidades sem perder a motivação e o alinhamento com valores éticos. Assim, grit é um pilar essencial na formação do caráter médico e no exercício da profissão, permitindo que o médico una conhecimento, caráter, humanidade e perseverança em benefício da vida.
REFERÊNCIAS:
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