Maturidade: um estudo da obra de Rafael Llano Cifuentes¹
“Assuma a responsabilidade por suas ações e deixe que elas falem por si.” Alexi Lubomirski²
A maturidade é a capacidade de encarar a vida e abordar os problemas sob uma ótica positiva e com uma atitude correta, sendo capaz de avaliar as experiências vividas, ser ponderado e confiável (Gl 5:22-23), mas, também, firme (1Co 15:58) diante das diversas situações e pessoas. A idade influi no grau de maturidade, mas não a condiciona, pois é possível encontrar maturidade em pessoas jovens e imaturidade em homens que já ultrapassaram algumas décadas de vida. A maturidade é, portanto, propriedade daqueles que adquiriram as capacidades que qualificam a alma, não uma determinada época de vida.
No mundo atual, predomina uma cultura superficial e egocêntrica, carente de valores humanos e com traços típicos de imaturidade social e individual. Isto leva ao hedonismo, relativismo moral e frivolidade existencial, todos combinados a um materialismo prático (Ecl 12:8). O prazer contínuo e imediato conduz à permissividade, ou seja, à submissão a tudo aquilo que é agradável; esse fenômeno gera, então, um relativismo moral onde o juízo de valores não obedece a um critério permanente, variando a partir do ponto de vista pessoal ou da opinião majoritária do meio social; isto ocorre com o objetivo de relativizar a verdade para certas conveniências e aos desejos urgentes. Consequentemente, o indivíduo perde o rumo, sem saber para onde ir, como um barco sem leme (Tg 3:4).
Quando faltam valores, também escasseiam os compromissos. O compromisso representa a estabilidade, enquanto os desejos levam à versatilidade, ou seja, sujeito a mudanças de acordo com estados físicos, psicológicos, hormonais; e, assim, tudo passa a ser subordinado a caprichos e vaidades (Ecl 1:2). Desta forma, a vida se torna superficial, sem profundidade e pueril. No entanto, ainda que se tente banir da atmosfera cultural as questões eternas, é impossível extirpá-las do coração humano; e, quando a razão não encontra respostas, o homem se vê tomado por profunda angústia existencial (Mt 16:26).
A maturidade representa uma reação a um desejo autêntico de valores sólidos, critérios morais firmes e objetivos, além da superação de um hedonismo infantil. É fundamental sustentá-los em valores eternos, ou seja, em Deus (Dt 6:5) e na fé (1Co 13:13) que o acompanha. Ao fim, a maturidade plena se edifica sobre a rocha firme (Mt 7:24-25) da paz e da certeza de estar na direção certa da felicidade e da verdade (Jo 8:32).
Para crescer em maturidade, é necessário uma série de capacidades e atitudes (Pr 23:12). Um princípio que conduz à personalidade madura é a propriedade de assimilar as próprias experiências, aprendendo com as lições vividas (Hb 12:7) durante a vida desde a infância até à fase adulta. Trata-se de separar o bom do ruim nas escolhas e nos julgamentos sobre os eventos vividos³. Ao não ler o livro da própria vida, comete-se o erro de não assimilar a própria vivência e ignorar os erros já cometidos. Imaturo é aquele que não sabe ou não quer ler as páginas da sua própria história.
Para assimilar as experiências, é importante ter uma memória acurada, profunda e confiável. Ao auxiliar na consolidação da personalidade, a memória é fundamental para o crescimento pessoal e integração da própria identidade. O imaturo, por outro lado, não tem memória no sentido mais profundo: vive de forma melancólica submerso na corrente do tempo, sem rumo ou direção.
As pessoas tendem a esquecer os próprios erros porque, muitas vezes, lhes falta humildade e capacidade de reflexão. Como as falhas ferem o orgulho e a sensibilidade, o imaturo evita encará-las, recusando-se a tomar consciência delas. Essa atitude, por sua vez, traz sérios prejuízos aos relacionamentos pessoais, conjugais e profissionais. Além disso, ao negligenciarem os próprios desvios, esses indivíduos costumam julgar severamente os outros (Mt 7:1-2) e medir, injustamente, outras pessoas por suas fraquezas4. Por essa razão, é essencial cultivar o hábito de analisar objetivamente os comportamentos passados com a mesma clareza e rigor que se costuma empregar ao criticar os defeitos alheios, pois quem se ocupa de si com diligência facilmente deixa de falar dos outros5.
Após revisitar a memória e refletir sinceramente sobre as próprias faltas, torna-se valioso avaliar o erro em sua verdadeira dimensão, evitando reincidir nele. Ponderar significa atribuir a dimensão correta e a importância adequada ao êxito, fracasso, triunfo, contrariedade, etc. Para isto, é necessário refletir regularmente, reservando diariamente algum tempo para repassar e meditar os acontecimentos da vida, os problemas enfrentados e as dificuldades superadas. Adiar este tempo de meditação é um erro grave, pois ignora e menospreza as próprias falhas, permitindo que elas se repitam, seja por hábitos inconscientes ou caprichos não reconhecidos.
É salutar transcender o primitivo universo das sensações. Imaturidade é a orientação pelo mais atrativo, chamativo e cativante estímulo, reflexo de impulsos superficiais e intermitentes de paixões e instintos influenciados por circunstâncias ambientais, sociais e estados de espírito como cansaço, preguiça, tristeza, saudade, alegria, etc. Nessa condição, o comportamento é pautado por fatores externos e, não, por decisões internas (1Sm 16:7), como seria correto. Por isso, é essencial não se deixar arrastar por acontecimentos; ao contrário, cada indivíduo deve marcar o ritmo da própria vida, resistir às tentações (Tg 1:12), não permitindo ser possuído por ansiedade, preocupações, impaciência ou irritação. Deve sempre observar as coisas cuidadosamente para descobrir o melhor curso da ação6.
O imaturo é excessivamente emocional e impressionável, sujeito a altos e baixos e submetido à tirania do capricho e direcionado para onde o vento sopra mais forte. Isso resulta em uma personalidade indefinida e em comportamentos imprevisíveis. Por outro lado, o indivíduo maduro aborda questões universais, como o sentido da vida, com sabedoria, seguindo um caminho reto às custas de esforço e sacrifício, superando os impulsos passageiros e variações de humor, conferindo uma personalidade estável de comportamento e equânime ao longo da vida. A maturidade, portanto, requer consciência profunda sobre a finalidade da própria existência.
Cada qual tem uma missão a percorrer e cumprir. Sem consciência da própria vocação, não há objetivos claros nem convicções firmes, e esse caminho, inevitavelmente, encontrará limites e fronteiras. Sem esse conhecimento, falta motivação e força para progredir, bem como a compreensão do sentido da vida; e, sem isso, torna-se impossível alcançar as raízes mais profundas do ser, que impulsionam o homem rumo ao seu destino definitivo, ou seja, a plenitude do ser. O indivíduo maduro é aquele que, depois de muito refletir, rezar e procurar conselhos, chega a uma luz clara sobre o que lhe cabe fazer na vida.
Dominar a si mesmo é uma marca das pessoas maduras. Governar a si mesmo é algo primordial e deve ser aprendido desde cedo. A indisciplina e a falta de controle sobre si são sinais claros e peculiares da imaturidade. A ausência de autodomínio leva à angústia, abuso de substâncias e busca por apoio psicológico. É como dirigir sem um destino, onde qualquer caminho serve7. Irritabilidade, nervosismo, instabilidade de humor, surtos emotivos e apaixonados, apatias e obsessões são exemplos claros do desgoverno sobre si.
Outro ponto importante é o controle da imaginação. A imaginação é útil ao enriquecer a criatividade, mas, se não disciplinada, leva a um mundo irreal, inventa perigos inexistentes e cria falsas perspectivas. No extremo oposto, a imaginação pode criar um mundo perfeito, repleto de projetos e visões grandiosas que jamais se concretizam. Desta forma, o problema de sonhar está em perder a devida proporção com a realidade, empreendendo uma ação irrealista, pouco prática e não fecunda. A maturidade leva a pessoa a um caminho objetivo, longe de pensamentos e emoções negativas8, guiado por altos ideais, mas condizentes com a realidade.
Sem superar as condições passadas, não é possível dominar a si mesmo. É necessário conhecer a si mesmo e não ter receio de mergulhar no seu interior para diagnosticar as possíveis causas de reações indevidas (Pr 18:13) e compreender a raiz de complexos e ressentimentos. Ao domar o temperamento (Pr 10:19) e controlar as paixões, evita-se tanto ceder às correntes ocasionais da vida quanto permanecer estagnado enquanto o tempo passa. Nenhum mérito é maior do que dominar a si mesmo e as suas próprias paixões9 e, para adquirir força de vontade, é preciso negar os prazeres, estímulos e inclinações imediatas. A prática diária de submeter-se à própria vontade seja nos grandes ou pequenos afazeres imprime uma orientação nova à vida. O homem maduro jamais age contrariamente à sua consciência10 e é forjado pelo caráter, fortalecido diariamente por pequenas vitórias. Assim, fortalece o querer, preparando-se para exercer o poder sobre aquilo que antes parecia intransponível.
O indivíduo maduro é realista, conhece os limites da sua capacidade e da realidade que o circunda. Sabe distinguir o mundo dos desejos do mundo real. A imaturidade, em contraste, cria falsas expectativas e vai atrás do ilusório11, acabando em euforia ou depressão. A realidade abrange o mundo que está a volta do indivíduo e, também, a realidade íntima de cada pessoa. Quanto mais amadurecida é uma pessoa, mais apurado será o senso de precisão, exatidão e rigor para avaliar a realidade efetiva. Ter o sentido da realidade é conhecer o fim a atingir, os meios de que se dispõe, as capacidades e as limitações daqueles com que se trabalha, as oposições inevitáveis, as escolhas a evitar, as dificuldades a vencer e as deficiências a suprir. Ter o sentido da realidade é saber esperar, suportar as demoras que a vida impõe e, ainda assim, preservar a alegria.
Isto leva à paciência (Tg 1:2), uma virtude que permite suportar os erros, aborrecimentos e todas as contrariedades da vida. A paciência envolve moderação, capacidade de esperar, perseverança, insistência e flexibilidade. A prudência anda junto a paciência, pois ambas se relacionam com a sabedoria (Pr 4:7) que nasce das experiências acumuladas. A prudência é, portanto, a capacidade de tomar decisões ponderadas (Pr 14:33).
Aceitar a si mesmo como realmente é pode ser uma tarefa difícil, mas, constitui, antes de tudo, um processo necessário de autoconhecimento. É possível não reconhecer os próprios defeitos por estar excessivamente familiarizado a eles, bem como, também, se surpreender por acreditar não ser capaz de cometer erros jamais imaginados. O imaturo vive em um universo ilusório que o impede de conhecer os limites da sua personalidade, sustentando pequenas mentiras que permitem viver satisfeito consigo mesmo; essa forma de autossabotagem dificulta aceitar conselhos ou correções. Por outro lado, o autêntico conhecimento de si não apenas leva ao reconhecimento dos próprios defeitos, bem como conduz ao reconhecimento dos grandes dons que recebemos; ou seja, permite reconhecer e aceitar plenamente quem se é.
O homem maduro possui segurança interior, dá o melhor de si a fim de se tornar verdadeiramente belo e nobre12, é desprendido da opinião alheia, procura o bem comum, sendo calmo, simples e objetivo. Ao contrário, o imaturo revela traços narcisistas, aplicando duas medidas: uma grande para receber e outra pequena para dar. Pensar nos outros é sinal de generosidade e de consciência de que a vida deve se integrar ao ambiente em que se vive. Dessa maneira, assume-se responsabilidade não apenas consigo, mas, também, perante os outros. As pessoas responsáveis aceitam as consequências de seus atos e erros, assumem seus compromissos com firmeza, fazendo aquilo que a consciência indica como bom e cumprem os pequenos deveres de cada instante13, independente das exigências, obstáculos ou circunstâncias adversas. Esses indivíduos desenvolvem a capacidade de melhorar um pouco a cada dia14, vivem a pontualidade15, sem adiar as tarefas mais antipáticas ou prolongar as mais desagradáveis. Ao realizar o dever, o indivíduo encontra realização pessoal, pois, ao crescer na responsabilidade, cultiva qualidades que superam a tendência natural ao desleixo e à apatia, atingindo, enfim, a plena realização do ser.
Em síntese, a maturidade pode ser entendida como o acabamento das virtudes, expressão visível da vida que confere coerência e harmonia aos diversos aspectos da personalidade. Para alcançá-la, é necessário dedicar tempo diário à reflexão e ao exame de consciência16, ponderando antes de agir, afastando ressentimentos e esforçando-se para perdoar (Mt 6:14) e compreender os outros (2Co 2:7). Além disso, é primordial dominar o temperamento, assumir responsabilidade sobre o dever de cada momento, cumprir o que se propôs e aceitar paciente e alegremente as pequenas contrariedades. O esforço em aceitar as limitações da realidade e meditar as consequências das decisões tomadas constitui outro passo essencial na busca da maturidade. Por fim, auxiliar os necessitados (1Ts 5:14), cumprir os compromissos assumidos (Gl 6:5), sacrificar-se em silêncio (Ecl 3:7), sem buscar aplausos ou reconhecimento (Mt 23:5-7;13) e manter a contínua atenção aos próprios pontos de imaturidade representam etapas finais para, ao término da vida, poder chegar à maturidade plena.
REFERÊNCIAS:
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